TRAJETÓRIA DO PLANET HEMP PASSADA A LIMPO

TRAJETÓRIA DO PLANET HEMP PASSADA A LIMPO

*Por Thiago Prata
Divulgação

É indelével e indefectível o trabalho desempenhado pelo Planet Hemp em mais de duas décadas e meia de existência e resistência. Entre idas e vindas, polêmicas e muito bom gosto musical em sua simbiótica e bem-sucedida fórmula calcada no rock e no hip-hop – embora haja flertes com outros estilos –, o grupo fez jus a vários papeis da arte: incomodar, contestar e fomentar o debate. Tudo isso tendo como diferencial o discurso ácido e crítico contra as mazelas da sociedade, denunciando as injustiças causadas pelas autoridades políticas e levantando com orgulho a bandeira em prol da legalização da maconha. Essa história foi documentada e lançada em forma de biografia pelo escritor, jornalista e quadrinista fluminense Pedro de Luna. E se você que se diz fã da banda, mas ainda não conferiu as 496 páginas de “Planet Hemp: Mantenha o Respeito” (Ilustre Editora), trate de fazer um favor a si mesmo e corra atrás dessa obra recheada de “aventura, comédia, suspense e até terror.

“É um livro que emociona, mas que também diverte. A repercussão tem sido incrível, todo mundo amou. Muita gente diz que é um ‘livrão’. Tem pessoas que me disseram que passaram mal de tanto de rir das histórias sobre o Formigão, o Black Alien, sobre as paródias, os apelidos…”, ressalta de Luna, que disseca também os capítulos mais emocionantes e dramáticos do grupo carioca. “A começar pelo Skunk, que teve toda a ideia (de formar a banda) e uma morte tão dura, em decorrência da Aids. Ele sequer gravou o primeiro disco, pois faleceu em 1994, e o ‘Usuário’ saiu no ano seguinte”.

Crédito Zeca Santo

Pesquisa e entrevistas

Pedro de Luna percorreu mais de 30 cidades por todo o Brasil para lançar “Planet Hemp: Mantenha o Respeito”, dentre elas, Belo Horizonte, onde esteve em fevereiro (n’Obra e na livraria Quixote) e em setembro (na tabacaria Dejavu). O trabalho desenvolvido e transferido da ponta da caneta para o papel é considerado extremamente minucioso e, consequentemente, rico em detalhes.

“O que deu mais trabalho foi a pesquisa. Só começo a escrever quando tenho boa pesquisa reunida e quando tenho certeza de que vale a pena fazer um livro sobre determinado tema, personagem ou banda”, conta de Luna. “Os anos 90 eram uma época em que pouca coisa era digitalizada, era ‘tudo’ analógico, a internet estava chegando de mansinho… Mesmo hoje, quando vamos pesquisar coisas da época, encontramos pouco material em vídeo, seja videoclipes, programas de TV… E a resolução nem sempre é boa, o áudio é ruim. A mesma coisa acontecia com fotografias, muitas eram guardadas em porões ou eram perdidas”, completa.

O segundo passo nesse processo de elaboração da obra foram as entrevistas. “Isso foi relativamente ‘suave’. Todas as entrevistas foram feitas de forma individual. Quando uma pessoa não estava no Brasil, como foi o caso do Seu Jorge e do produtor Mario Caldato Jr., fazíamos por e-mail ou via WhatsApp. E todo mundo ficou bem à vontade.  Obtivemos um material nunca antes reunido. Não só do Planet, mas também do rock nacional dos anos 90, pois, apesar de ser um livro sobre a banda, também é um livro sobre o contexto daquela época”, relata.

Livro e filme

O livro foi lançado quase na mesma época em que chegou às telonas o filme “Legalize Já: Amizade Nunca Morre”, dirigido por Johnny Araújo e Gustavo Bonafé e que narra o encontro de Skunk e Marcelo D2; essa amizade resultaria na formação do Planet Hemp. Uma “feliz coincidência”, como salienta Pedro de Luna.

“Foi uma distância bem pequena entre o lançamento de um e outro. Confesso que gostaria que o livro tivesse sido lançado exatamente na época do filme. Seria bem legal seguir a máxima do ‘veja o filme, leia o livro; leia o livro, veja o filme’. As pessoas sairiam do cinema e passariam numa livraria para comprar o livro”, diz.

“Mas são obras diferentes. O filme não é exatamente sobre o Planet Hemp, mas da amizade do Skunk com o camelô Marcelo, que ainda não sonhava em ser o Marcelo D2 cantor, apesar de gostar de música”, complementa.

Crédito Zeca Santo

Importância do Planet

Em termos estéticos, de Luna aponta várias contribuições do grupo carioca, um dos líderes daquela geração da década de 1990 e que viria a influenciar uma gama de bandas nos anos 2000. “Foi a primeira banda a incorporar um DJ como músico e a incorporar a estética do rap ao rock no Brasil. Algo que se firma no segundo disco (‘Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Pára’, de 1997). Além disso, há a dinâmica de dois vocalistas que não usam instrumento. Algo que vem da estética do rap e difere daquelas bandas dos anos 80, que tinham vocalistas que também tocavam, como Herbert Vianna e Humberto Gessinger”, declara.

Em suma, como o autor do livro gosta de enfatizar, “o Planet não era só uma banda de rock”. “A gente pode pensar que o Planet Hemp era influenciado por Cypress Hill e Beastie Boys, por causa dessa formação de ter instrumentos, mas também pela pegada hip hop com DJs e vocalistas. Só que o Planet também trouxe a temática ‘legalize já’ como novidade”, reitera.

Polêmica

Pouco depois do lançamento de “Planet Hemp: Mantenha o Respeito”, foi ventilado que a própria banda não aprovou o resultado final da biografia, fato desmentido depois. Pedro de Luna explica o que realmente ocorreu.

“Foi o empresário que tentou criar uma polêmica, e nunca soubemos o que de fato o desagradou. Ou se ele quis fazer aquilo para chamar atenção. Dois dias depois soltamos uma nota desmontando o argumento dele. O D2 me ligou, e tenho esse áudio guardado a sete chaves, dizendo que gosta muito do meu trabalho e que ele tinha acabado de brigar com o empresário. Me disse que o empresário não poderia dar opiniões pessoais utilizando os canais da banda. O empresário recuou, e o livro segue um sucesso. De maneira nenhuma um empresário será mais importante que quem faz as músicas”, afirma de Luna, que encerrou o papo com nossa reportagem com a expressão “Mantenha o Respeito”.

*Repórter especial

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