JOÃO GILBERTO: SAUDADE FEZ UM SAMBA EM SEU LUGAR

JOÃO GILBERTO: SAUDADE FEZ UM SAMBA EM SEU LUGAR

Minha singela homenagem ao maior gênio da música brasileira

Quando eu nasci, em 80, a bossa nova já existia há duas décadas. Mas lá em casa, os discos não saíam da vitrola. Minha família, super musical, sempre se reunia para cantar e tocar, e João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Morais eram parte obrigatória do repertório.

Me lembro como se fosse hoje da primeira vez que ouvi “Desafinado” e da forma arrebatadora com que aquela canção me atingiu (e me atinge até hoje – minha preferida de João). Mesmo pequena, para mim, não existia nada mais bonito nesse mundo que aqueles acordes – dela e da bossa nova como um todo.

Dei muita sorte nesse aspecto porque meu pai, Waldir Alvarenga – um exímio musicista -, me criou ensinando como a música é poderosa e como ela pode fazer bem. Assistíamos juntos a vários especiais de bossa nova pela TV , ele sempre me contando histórias que viveu quando tocava em barzinhos ou em grandes bailes pelas cidades mineiras. Nelas, a bossa nova era parte indispensável.

Crédito Léo Aversa

Além disso, fez questão de me mostrar tudo de melhor que havia na música: Beatles, Pink Floyd, Ella Fitzgerald, Ray Charles, Frank Sinatra, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina… E a respeitar a trajetória de cada um deles. Me mostrava os acordes, o jeito de cantar, o timbre, a interpretação e me dizia que era preciso cantar com verdade, como faziam todos esses aí…

Com João Gilberto não foi diferente! O toque macio do violão e a voz calma e tímida eram um deleite, ficávamos horas ouvindo e cantando suas canções. “É o maior gênio do Brasil”, diz meu pai. E eu, claro, assino embaixo!

Ninguém fez ou fazia nada igual (se é que fará um dia). Os acordes absurdamente difíceis e bem tocados – todos perfeitos, se misturavam à voz que ora antecedia ora atrasava a letra sem se atrapalhar, o que é difícil demais de conseguir – e ele fazia com maestria.

O pai da bossa nova, o inventor do estilo banquinho e violão, um profissional extremamente perfeccionista e genial, por isso, talvez, tão exigente quanto à qualidade do seu público e do som dos locais onde se apresentava.

Sempre tem uma história, lenda ou algo assim que ele estava tocando numa casa de shows e um cara começou a falar no meio da música. De repente, João Gilberto fala: “Tirem o moleque”, rs… Imaginem se ele fizesse um show hoje em dia, com mil celulares gravando tudo? Como acham que reagiria?

Ele era tão genial, mas tão genial, que em 1963, com o disco gravado em parceria com Stan Getz, ganhou um Grammy de melhor álbum desbancando ninguém menos que os Beatles!!! Isso mesmo, a maior banda de todos os tempos!!! Tem que respeitar!

Por isso, a morte de João Gilberto me causou uma grande comoção.  Sei que ele já estava fraquinho e debilitado, mas saber que nunca mais teremos alguém como ele, gera um vazio gigantesco. Pelo menos, teremos o legado que ele deixa que é sua música imortal, sua grandiosidade e seu enorme talento.

Só imagino a festa no céu com Tom, Vinícius e João tocando sem parar a partir de agora… ♥

“O maior artista brasileiro”
Conversei com o cantor (e meu querídolo amigo) Affonsinho, grande fã de João Gilberto, que o considera como o maior artista brasileiro moderno. “E vai ser moderno ainda por muitos e muitos séculos porque ele estava  a frente de todo mundo”.

Para o cantor mineiro, juntando Tom Jobim com o talento de escrever letras sofisticadas que pareciam simples e João tocando e cantando de uma maneira que também parecia simples mas era complicadíssima, foi um casamento perfeito.

“Se não fosse a existência de João Gilberto não teriam existido Caetano, Gil, Edu Lobo, entre outros, pelo menos não como se apresentam hoje porque todos se dizem muito influenciados por ele. É simplesmente o cara mais importante da música brasileira, que mudou a forma de tocar violão, de cantar, trouxe a delicadeza, a profundidade pra canção”.

João Gilberto também influenciou muito na música feita por Affonsinho. “Sempre ouvi, na minha casa tocava muito e é uma das minhas grandes referências – ao lado de Beatles e Bibi King. Tentava tocar igual, imitar os acordes mas fui descobrindo que era impossível, só ele conseguia tocar e cantar daquele jeito maluco, fazendo as divisões que fazia”, conta.

Algumas canções de Affonsinho como “Nuvem Boa” e “Aquela Bossa Axé” foram inspiradas em João. “Tentei copiar a vibe, aprender com ele, mas sei que não consegui chegar nem na sola do pé da sandália havaianas dele”, brinca.

 

Salve João Gilberto! <3 E obrigada por tudo!

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Música
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