ESPECIAL: TOQUINHO FALA SOBRE OS 60 ANOS DA BOSSA NOVA

ESPECIAL: TOQUINHO FALA SOBRE OS 60 ANOS DA BOSSA NOVA

Conversamos com o cantor sobre um dos movimentos musicais mais importantes e relevantes do país
Acervo Vinícius de Moraes

Eu era muito pequena e me lembro perfeitamente de estar na sala de casa ouvindo bossa nova com meu pai, Waldir Alvarenga. Tive a sorte de crescer numa casa com um excelente gosto musical, então os discos de Tom, Vinícius, Toquinho, João Gilberto e cia não paravam de tocar na nossa vitrola.

Mesmo sem entender direito o que era aquilo tudo, eu ficava maravilhada! Durante muitos e muitos anos foi meu estilo musical preferido (hoje ainda é, junto com rock e jazz), e eu cresci cantando as letras simples e profundas, ao mesmo tempo.

Quando ouvia coisas como “há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que darei em sua boca”, pensava que não podia existir nada mais lindo e poético.

Meu pai e eu assistíamos a todos os especiais de bossa nova que passavam na TV. Naquela época, em meados de 85, não era fácil conseguir assistir coisas assim a não ser que os canais abertos os exibisse. Mas não perdíamos nenhum. Eu amava!

Ouvia as histórias que meu pai contava sobre as noites em que ficava horas e horas com os amigos tocando bossa nova. Tudo que sei sobre isso, foi meu pai que me ensinou. E até hoje nos juntamos para tocar violão e cantar bossa nova.

Resolvi escrever sobre isso porque em 2018 ela comemora 60 anos. Os primeiros passos foram dados por Elizeth Cardoso com o disco “Canção do Amor Demais”, gravado em 1958, em que interpretava canções de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, entre elas “Chega de Saudade”.  O acompanhamento foi feito pelo baiano João Gilberto.

Em julho de 1958, meses depois de “Canção do Amor Demais” chegar às lojas, João Gilberto concluiu a gravação de seu próprio disco 78 rotações, contendo de um lado a canção Chega de Saudade, e de outro, Bim Bom, composição própria.

O álbum foi considerado definitivamente o que seria chamado de bossa nova. E não foi só isso: ele lançou todo um estilo diferente de tocar e cantar, um violão impecável e uma voz que parecia mais sussurrar.

Depois disso vieram muitas canções marcantes: “Desafinado”, “Onde Anda Você”, “Águas de Março”, “Corcovado”, “Garota de Ipanema”, entre muitas outras. Foram anos e anos de produção musical intensa com músicas que, ainda hoje, fazem muito sucesso. Até Frank Sinatra se rendeu aos encantos do estilo musical.

A bossa nova também trouxe muitas parcerias históricas, como a de Vinícius de Moraes e Toquinho, por exemplo. Tive a imensa honra de conversar com ele sobre este período, uma emoção que jamais vou esquecer.

A amizade entre os dois não podia ter começado de outra forma. Foi com o disco “A vida, amigo, é a arte do encontro”. O álbum era uma homenagem a Vinicius de Moraes gravada na Itália em 1969 em que Toquinho gravou o violão, apesar de ainda não terem se conhecido.

Este encontro só aconteceu um ano depois, em 1970, quando o poeta, muito impressionado com o talento de Toquinho, convidou-o para o acompanhar em uma turnê na Argentina, ele com 24 anos e Vinicius com 57. “Já tinha me encontrado com Vinicius algumas vezes antes de trabalhar com ele. Mas foram encontros esporádicos sem nenhuma consequência, mais de curtição pelo ídolo. Em 1970, ele me convidou para acompanhá-lo numa temporada de shows em Buenos Aires. Foi daí que passei a conviver mais e a conhecê-lo mais profundamente”, conta.

“A parceria com Vinicius me ajudou como compositor, ele era também um grande músico. Foi um privilégio ter convivido tão intensamente com Vinícius, que soube transformar em poesia a paixão que tinha pela vida”, comenta Toquinho.

O músico acredita que dificilmente terá, de novo, uma parceria tão importante quanto a que teve com Vinícius. “Foi consolidada pela generosidade, pela compreensão das diferenças e pela troca de talentos. Trocamos vivências: eu passei para ele a experiência da juventude, ele me transmitiu a juventude da experiência, e nos completamos na música e na amizade”.

Nos onze anos de parceria, a dupla criou mais de cem canções, gravou cerca de 25 discos e fez mais de mil shows no Brasil e no exterior. “Nossa música, simplesmente sofisticada, aflorou e se consolidou em meio ao predomínio do Tropicalismo, e reacendeu nas pessoas os valores do samba de raiz. Além disso, faço parte de uma geração privilegiada, herdeira da estrutura musical da Bossa Nova, que nos confere ainda, até hoje, a qualidade maior no cenário musical brasileiro”.

Assista aqui um especial da TV Cultura com Vinícius e Toquinho:

Vivendo a Bossa Nova

O músico conta também como foi viver o auge dessa época de ouro da música brasileira. “Durante esses mais de 50 anos de carreira, aprendi a agarrar a vida e a música com naturalidade e alegria, do jeito que elas chegam. A Bossa Nova marca o início de meu longo percurso artístico e representa a transformação cultural consumada no Brasil por uma juventude que buscava uma realidade musical mais autêntica, condizente com a euforia e a liberdade predominantes no país naquela época”.

E completa: “Faço parte de uma geração que elegeu o violão como signo genuíno de uma criatividade enraizada na beleza melódica dessas canções”.

“Meu devotamento ao violão deve-se  em primeiro lugar pela revolucionária batida de João Gilberto; depois, pelo extraordinário aprendizado com meu grande mestre Paulinho Nogueira; passando ainda pela influência melódica de Oscar Castro Neves; chegando, enfim, àquele encontro inigualável de amizade e colaboração com Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Baden Powell, que contribuíram para que eu conservasse sempre vivo aquele anseio e  inspiração musical que ainda hoje perduram com a mesma intensidade. Tudo isso, me faz um verdadeiro herdeiro da Bossa Nova”, afirma Toquinho.

Para ele, a beleza da Bossa Nova continua encantando sucessivas gerações. “Ela difundiu para o mundo a vitalidade da arte musical brasileira, ainda hoje é presente, conhecida e admirada por todos. Posso, sem dúvida, afirmar que a Bossa Nova não tem tempo nem idade”, conclui.

Toquinho em BH

No dia 13 de outubro, sábado, vai ter show do Toquinho na Praça Duque de Caxias, no bairro Santa Tereza, em BH, dentro do Festival Somos Comunidade, promovido pelo Instituto Unimed-BH.

O cantor apresenta o show “Jazzinho – Jazz para Crianças” parte do “Toquinho no Mundo da Criança”. As composições ensinam para os pequenos os seus direitos e deveres de forma lúdica.

Além disso, Toquinho apresentará grandes sucessos – como “O Pato”, “A Casa” e “O Caderno” – acompanhado da cantora goiana Camilla Faustino.

A entrada é gratuita e o festival começa às 17h. Outras atrações também fazem parte do Somos Comunidade, como o espetáculo musical “Somos feitos de sonhos”, da Escola de Artes Instituto Unimed-BH, no Aglomerado Morro das Pedras; o grupo de percussão afro-mineira Bloco Saúde; o coral da Unimed-BH; Orquestra Sinfônica de Betim, entre outros.

Curiosidade
Até na hora da morte, Vinícius e Toquinho estavam juntos.

A morte chegou para Vinicius na manhã de 9 de julho de 1980. Ele jpa tinha tido duas isquemias cerebrais e se recuperava em casa, tentando pegar mais leve. Toquinho admitiria, depois, como um privilégio ter sido ele o escolhido para vivenciar as últimas horas do poeta. “Naquela ocasião, estava hospedado na casa de Vinicius, pois eu fazia uma temporada de shows com Francis Hime e Maria Creuza no Teatro da Galeria, em Botafogo”, conta.

“Eu saía todas as noites para fazer o show, voltando de madrugada. Mas havia um intervalo sem show, nas segundas e terças-feiras, quando eu aproveitava e vinha para São Paulo. Porém, na terça-feira, dia 8, misteriosamente, eu não saí, fiquei em casa”.

Toquinho pegou o violão e os dois começaram a tocar músicas antigas, revivendo coisas que há tempos não cantavam até altas horas da madrugada.

“De manhã, fui acordado por Dona Rosinha, a empregada, dizendo que Vinicius estava na banheira, passando mal. Levantei-me correndo e fui para lá. Olhei o Vinicius, meio deitado, pernas cruzadas, cabeça caída para o lado direito, respiração ofegante, já roncando. Batia no rosto dele, chamava-o pelo nome, e percebi que ele estava absolutamente inconsciente, com a respiração cada vez mais ofegante. Corri para o telefone, liguei para a Clínica São Vicente solicitando uma ambulância imediatamente”, explica Toquinho.

“Eu não sabia o que fazer, não podia fazer nada. Um remédio, alguma coisa, não tinha nada! Aí, num instante em que eu descia a escada à procura nem sei de quê, deparei com um médico subindo, às pressas. Entrei com ele no banheiro, ele pegou no pulso do Vinicius, apalpou o pescoço, olhou para mim e falou: ′Ele deve ter morrido há menos de três minutos′. Então, fiquei lá, olhando o Vinicius”.

Toquinho conta que foi uma situação muito estranha vê-lo morto. “Eu, um médico que eu jamais tinha visto, e o Vinícius morto, ali na banheira. Colocamos ele na cama e aí fiquei com ele lá por muito tempo. Olhava em torno, as coisas do quarto dele. Tudo lá representava o final de um tempo, final de uma fase, final de tantas coisas…”, encerra.

A história completa você pode ler no site do Toquinho.

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Música
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