ENTREVISTA: SCALENE PROPÕE UMA PAUSA PRA RESPIRAR

ENTREVISTA: SCALENE PROPÕE UMA PAUSA PRA RESPIRAR

Conversamos com o vocalista Gustavo Bertoni sobre o novo álbum e os 10 anos da banda

A banda Scalene acaba de lançar seu mais recente álbum, Respiro, e logo nos primeiros acordes dá pra sentir uma vibe bem diferente abraçada pelos integrantes Gustavo Bertoni (voz), Tomás Bertoni (guitarra), Lucas Furtado (baixo) e Philipe “Makako” Nogueira (bateria).

O som pesado (e até meio psicodélico às vezes) dá lugar a melodias mais simples, com inspiração em ritmos como a bossa nova, um violão mais dedilhado, introspectivo e um estilo mais calmo e reflexivo, por que não?

Respiro, além da definição mais óbvia do dicionário, também pode significar, por metáfora, um descanso, uma trégua. E é exatamente essa a sensação que o disco te causa.

Quando ouvi – e todas as vezes que ouço – é como se conseguisse me desligar um pouco das coisas à minha volta,  dar um tempo no ar pesado que nos ronda ultimamente. Um discão, do começo ao fim! ♥

Quarto álbum de estúdio da banda, que completa 10 anos de carreira em 2019, Respiro foi gerado como reação aos tempos inflamados em que estamos submersos.

Todas as faixas do álbum foram escritas em movimento oposto à tensão e ao descontrole que comandam nosso cotidiano. Menos peso, mais espaço. “A eficácia da delicadeza contra o monopólio do grito”, como descrevem os integrantes.

Respiro traz muitas influências da música brasileira – da Bossa Nova ao Clube da Esquina, além de participações especiais de Ney Matogrosso e Xenia França, nos vocais (sensacionais, by the way), e Hamilton de Holanda e Beto Mejia, nos instrumentos.

O novo álbum mantém a tradição da banda em correr várias vertentes da música do mundo, conciliando aparentes incompatibilidades. Por exemplo: as canções nasceram todas no violão, mas os arranjos incorporam influências de post-rock, música eletrônica, R&B e trip-hop ao contexto brasileiro.

Gustavo Bertoni

Conversamos com o vocalista Gustavo Bertoni sobre esse novo momento da banda e você acompanha a partir de agora:

BH Cult: Desde o primeiro acorde de Respiro, dá pra ver que o disco tem uma pegada diferente dos demais. Existe uma vibe mais calma, mais intimista. Era essa mesmo a ideia? Porque optaram por esse estilo agora?
Gustavo Bertoni: Claro, total. Esse CD surgiu a partir da soma de alguns fatores específicos. Dez anos de banda e a vontade de fazer algo acústico pra vender um show diferente. Novos ares, novos shows pra gente e pros fãs. Mas, aos poucos, compondo e planejando esse projeto, a coisa espontaneamente desenvolveu-se pra um álbum mesmo. Sem o apego de soar “acústico”, por mais que seja o esqueleto do disco. Pelo contrário, assim que internalizamos que seria mais um álbum nosso, nos permitimos explorar novas estéticas e gêneros. A calmaria do álbum reflete nosso momento como banda e indivíduos, assim como um contraponto ao caos e histeria “lá fora”. Estamos vivendo um momento em que achar lugares para respirar e recarregar as energias é crucial. magnetite foi bem provocador e reativo, bem “fogo”, por assim dizer. Fomos por outro lado nesse. Ansioso pro próximo.

BHC:  O conceito de “Respiro” ser, entre outras coisas, um tempo, uma pausa na loucura da vida, se encaixa perfeitamente com o momento atual do país. Como trouxeram isso para as músicas?
Gustavo: Acho que observamos mais os silêncios e espaços, falamos não mais vezes para algumas ideias. Fizemos dois interlúdios e uma música (O Que É Será) fora do metrônomo, pra quebrar um pouco a noção quadrada do tempo. Gravamos o disco sem pressa, num clima bem tranquilo de estúdio, coisa rara pra nós. Tomamos menos café. Acordei cedo pra correr ou fazer ioga antes de ir pro estúdio todos os dias.

BHC: O disco conta com partições especiais que deram um toque genial nas canções… Como vocês escolheram esses artistas?
Gustavo: Foi através de conversas com Diego Marx (produtor musical) e Marcus Preto (diretor criativo). Levantamos vários nomes, mas, na real, sempre soubemos que eram esses que queríamos. Fomos sortudos o suficiente de ter a grande honra deles toparem e ainda terem o tempo para gravar dentro do timing do disco. Elevaram muito as canções de formas diversas e únicas. Marcante para nossa carreira!

BHC: Nesses 10 anos de carreira, o que mudou? Qual o balanço você faz de tudo que viveram e produziram até aqui?
Gustavo: Não tem nem como resumir! Tudo tem mudado, constantemente. Começamos muito novos, eu tinha 15/16 anos. O “sonho” que cantávamos sobre virou realidade, virou trabalho, rotina. Os amigos de infância viraram, também, colegas de trabalho. Cada um desenvolveu suas individualidades contrastantes e, ao mesmo tempo e consequentemente, lógico, agregadoras. O balanço é extremamente positivo. Amamos o que fazemos, encaramos nossos desafios, erramos e acertamos, seguimos. Temos muito orgulho do tanto que já fizemos em várias esferas. De produzir discos nossos à colaborações, produzir eventos, rodar o Brasil, viajar. Shows com bandas pesadíssimas, shows com cantores Pop e da MPB. Os amigos que fizemos. Fomos de SXSW à Grammy Latino, de pub pra 150 pessoas à Palco Mundo do Rock In Rio e Lollapalooza. A gente conquistou tudo que almejamos. Isso é uma loucura! Agora estamos com novas vontades, redesenhando nossas metas. No fim das contas, tudo muda e continua igual: seguimos com o que sempre mais importou para gente, longevidade e constante evolução.

BHC: Há artistas brasileiros que gostam muito de transitar por vários estilos musicais. Isso é perceptível em vários âmbitos deste mapa musical da música brasileira. No Scalene, vocês o fazem de forma bem natural. Como é trafegar por lugares como R&B, pop, rock, MPB e até bossa nova (pelo menos percebo esses estilos na música de vocês)? Existe algo que vocês ainda não tenham feito nesse sentido e que gostariam muito de fazer?
Gustavo: É, como disse, natural. Escutamos esses gêneros todos e gostamos de incorporar isso no nosso som. Não nos sentimos presos por rótulos ou por expectativas. É divertido! Com certeza ainda existem muitos caminhos para experimentar ainda. Estamos sempre flertando com essas possibilidades.

BHC: Aqui em BH vocês tem um público muito fiel e que espera ansiosamente por um show seus. Já tem alguma apresentação marcada aqui pra apresentar o Respiro?
Gustavo: Ainda não! Mas certamente vai rolar! Nos programamos pra começar esses shows no fim de outubro, início de novembro sem pressa. Amamos BH, inclusive. Passei uma semana aí entre Sabará e BH, com o Jay da Young Lights, amigão. Adorei as pessoas e os rolês.

Sobre o disco
O Scalene fez a pré-produção de Respiro em Brasília, na casa-estúdio do produtor Diego Marx, também responsável pelos trabalhos antecessores do grupo. E, desde a fase embrionária, contou com a direção artística de Marcus Preto, nome ligado a álbuns recentes de artistas como Gal Costa, Tom Zé, Nando Reis e Silva.

Versões demo de cada música foram criadas pela banda em Brasília e depois levadas para o estúdio Family Mob, em São Paulo. Ali, foram feitas as gravações oficiais entre os dias 18 e 26 de fevereiro. De volta a capital do país, instrumentos complementares foram adicionais.

A capa foi criada pela artista plástica Alice Quaresma, brasileira que vive nos Estados Unidos, desenvolvida dentro da ideia de novos caminhos. A arte se desenvolveu através do encontro de linhas feitas à mão sobre uma imagem do horizonte que registra o tempo. As linhas entram no campo do imaginário e das possibilidades. Já a imagem remete ao registro do que já aconteceu. O horizonte é uma referência a novos caminhos e a ida a um lugar desconhecido, com a esperança de novas oportunidades. Neste caso: som, arranjos, parcerias, música e encontros. A imagem foi tirada com o sol nascendo, trazendo mistério e profundidade no vazio que aumenta além do horizonte.

Ficha técnica:
Gravado no Estúdio Family Mob por Hugo Silva e Otávio Rossato
Gravado no Yebba Doar por Diego Marx
Produzido por Diego Marx
Direção criativa por Marcus Preto
Mixado por Ricardo Ponte.
Masterizado por Erwin Maas.
Todas músicas compostas e gravadas pelo Scalene
Bandolim em “Vai Ver”: Hamilton de Holanda
Voz em “Esse Berro: Ney Matogrosso
Flauta transversal em Ciclos e Casa Aberta: Beto Mejia
Vozes em “Furta-Cor”: Xenia França
Bianca Vieira – Violino (Esse Berro)
Mariana Gomes – Violino
Mirella Righini – Violoncelo
Victor Curado – Viola

Ouça Respiro
You Tube: scalenetube
Deezer: Respiro
Spotify: Respiro

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Categorias
Música
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