BH CULT INDICA: RAFAEL VENTURA

BH CULT INDICA: RAFAEL VENTURA

Conheça a pessoa mais sensacional dessa quarentena

Glitter na cara dos caretas! Esse é um dos lemas do nosso entrevistado de hoje da coluna BH Cult Indica, Rafael Ventura. Ele é ator (formado pelo Cefar do Palácio das Artes), diretor, compositor, autor, cantor, um dos líderes dos blocos de carnaval de BH Alô Abacaxi e Corte Devassa e agora também editor, roteirista, cenógrafo, figurinista e apresentador do programa Queerentena, que ele comanda junto com a também maravilhosa Bella La Pierre (Gabriela Domingues). Ufa! Muita coisa né?

Ah! Faltou dizer, ainda, que ele é um multi artista queer de Belo Horizonte, de 31 anos. Durante esse período de quarentena, eu me deparei com um programa no Instagram que me chamou muita atenção: é o Queerentena, em que ele e a Bella batem um papo sobre acontecimentos e fatos do cotidiano. Meu encantamento foi imediato: pelo programa e por ele.

Pra mim é como se tivesse um holofote gigante em cima dele, de quem eu não conseguia tirar os olhos. Amei tudo: o jeito de falar, de se mostrar, de articular os assuntos, de interagir e, principalmente, a forma direta e sem papas na língua que ele usa pra falar de temas ainda hoje considerados tabus pela sociedade retrógrada em que vivemos.

Foto Thiago Misan

Resultado: eu só conseguia pensar que precisava entrevista-lo, falar com ele, ficar amiga dele. E foi o que aconteceu, para minha alegria! Bati um papo com o Rafa sobre o programa e sobre a quarentena, que você confere a partir de agora:

BH Cult: Pra começar, quem é Rafael Ventura?
Rafael Ventura: Bom, tenho 31 anos e sou um multi artista queer em Belo Horizonte. Digo multi porque considero que tenho múltiplos talentos e queer porque de uns anos para cá, assumi esse traço mais ativamente de trabalhar para o público LGBTQIAP+.

BHC: Como tem sido sua vivência na quarentena?
Rafael: Todos os meus privilégios tornam esse período triste e tortuoso impressionantemente leve para mim. Quando pensei na primeira semana que isso pudesse durar muito, sofri demais, achei que seria muito doloroso, mas não, está sendo até tranquilo. Tenho minhas crises, essa montanha russa de sentimentos que todos estamos experimentando, mas meus dias tem sido equilibrados. Muito disso se deve, é claro, ao programa e a tudo que essa criação semanal me mobiliza a fazer. Porque eu sou artista para isso, para criar. Quando estou criando, estou nesse movimento, começo a criar mais, me sentir mais vivo e é isso. Essa quarentena para mim está sendo realmente um laboratório, com a câmera, com as tecnologias, o Instagram, com os planos que tinha e tenho. Não tem como ser bom com tantos aspectos horríveis e tantas mortes, mas tem sido construtivo. Acredito que vou sair melhor, artisticamente.

BHC: Como você acha que será daqui para frente?
Rafael: Não sei, sinceramente! E estou tentando não pensar muito sobre isso porque fazer isso agora quando a gente não tem nada muito concreto – quando vai acabar, se vai acabar -, me faz sofrer. Tenho pensado em qual a próxima edição da Queerentena? Qual o próximo tema? Como podemos torná-lo legal e interessante? Esse tem sido meu Norte nesse período: pensar criativamente! Mas, estou plantando boas energias de que isso vai passar, porque vai passar – é uma das poucas certezas que a gente tem! E assim que passar, pretendo retomar os meus planos de me dedicar a minha música, continuando também o que tenho plantando agora. Em relação ao país e ao mundo estou bem desiludido. Minha maior torcida é que, se até o final dessa quarentena o Bolsonaro cair, alguma coisa terá valido a pena! Torcer para que as pessoas também saiam melhores e mais humanas disso tudo, porque são tantas vidas indo embora, muitas perdas irreparáveis.


BHC: Falando agora sobre a Queerentena, como sua vida e da Bella se encontraram?

Rafael: Somos colegas do Cefar no Palácio das Artes, estudamos na mesma época. Depois disso seguimos próximos, viramos amigos porque rolou uma identificação imediata. Montamos uma banda drag depois, a The Pulso em Chamas que existiu até o início de 2020.

BHC: E como surgiu a ideia do Queerentena?
Rafael: Logo na primeira semana da quarentena, foi aniversário da Bella que decidiu fazer uma Live e me convidou pra participar. Ela ia performar drag, eu levei algumas brincadeiras e interações, uma pauta para gente brincar, se divertir despretensiosamente. Ainda haviam poucas lives na época porque era o início de tudo, por isso, muita gente viu e adorou. Gostaram da nossa interação que é muito natural já que somos muito amigos e a forma com que a gente tratou a pauta também foi elogiada. Fez tanto sucesso que propus para ela uma brincadeira de fazer mais uma live, dessa vez no meu Instagram. A gente se preparou um pouco mais, fez o papo ao vivo e teve uma ótima repercussão. Depois disso, propus de transformar aquilo um programa gravado. Não sabia o que seria ou como fazer, já que não tinha certeza se ia dar conta de mexer com edição e tudo mais. Só que, brincando, testando, a gente foi chegando na Queerentena que é hoje. Sempre foi um objetivo meu ter alguma coisa na internet, há bastante tempo sou um artista do fazer teatral, de dar as caras na rua, no teatro, no carnaval, mas com pouco espaço conquistado na internet. Senti muito isso quando lancei minha música (Furta-Cor) esse ano, dificuldade de penetração nesse espaço, então já tinha um desejo. A quarentena só me fez apropriar desse espaço e realizar meu desejo através desse web show com a Bella e de todos os planos que envolvem a Queerentena.

BHC: Qual o objetivo do programa?
Rafael: Depois que resolvemos investir tempo, dedicação, trabalho nisso, firmamos que um dos objetivos era fortalecer o nosso IG e a parceria com o nosso seguidor, com quem já nos acompanhava, de continuar tendo essa troca lá de quando as coisas funcionavam normalmente. A gente pega um tema qualquer, sem preconceito, tabu ou medo, alguma coisa que nos toque, factual ou não, e dá a nossa visão artística sobre ele através de interações com as pessoas e de quadros que fomos criando. Temos o SAQ – Serviço de Atendimento aos Queerenteners, em que lançamos uma questão e as pessoas respondem para gente debater isso no programa; tem o Na Maria, com “receitinhas” em que parece que estamos ensinando uma coisa que por trás tem toda uma crítica social, política; a Barbe Fascista e o Boy de Merda, que são figuras que encarnam o que há de pior na sociedade, personas que reproduzem preconceitos; o Conversa Afiada, que a gente trata o tema do dia de forma teatral, e por aí vai.

BHC: E como tem sido o retorno do público?
Rafael: Tem sido incrível! Realmente não esperava porque tudo começou como uma grande brincadeira, mas proporcionou que me aproximasse do público, coisa que eu temia né, ficar distante dele. Pessoas que se quer imaginava, começaram a gostar do meu trabalho e a me acompanhar a partir do programa. Pessoas que se tornaram, inclusive, muito importantes para mim por que trocam ali comigo semanalmente um pouco das suas ansiedades, valores, crenças ou simplesmente afetos, dizendo quanto gostam do programa, admiram a gente, esperam pelo próximo episódio. Criamos uma rede muito importante que se envolve, divulga, participa e faz a coisa render.

BHC: É possível dizer, de todos até hoje, qual foi o episódio mais marcante?
Rafael: O programa sobre medo e LGBTFobia é o meu preferido. Mas, se me perguntasse isso na semana passada, teria dito que tinha sido o sobre Orgulho Hetero. E se fosse na outra semana, seria o sobre Orgulho LGBTQIAP+, rs… Estamos numa crescente, melhorando, nos apoderando de como é fazer isso, da melhor forma de fazer, nos tornando mais assertivos. Sou muito crítico com meu trabalho, então a última Queerentena que nasce, o último filho, sempre vem muito especial, com um gostinho de aprimoramento, nos esforçado para fazer cada vez melhor.

BHC: Vocês já têm outros planos para o programa?
Rafael: Vários planos, alguns já até começamos a desenvolver. O primeiro era desmembrá-lo em Spin Offs, subprodutos como a Barbie Fascista que vai ter um quadro quinzenal; o Sem Filtro que é uma crônica ligada a fatos da minha vida sobre o tema do último programa; a Lojinha Queerentena e um Projeto de Lei para fazer uma temporada com convidados especiais. Nosso intuito principal é seguir firme fazendo isso enquanto der, para além da quarentena. É uma vitrine, uma possibilidade ótima de diálogo com nosso público e que amplia nossa presença na internet, o que também é muito importante.

Conheça:
Instagram: @orafaelventura
Clipe Furta-Cor: link
Spotify: Furta-Cor

E sigam também a Bella La Pierre: @bellalapierre

Fotos: Reprodução IG, Thiago Misan, Urban Mee BH, Marcelo Machado, Marcelo M Silva, Lu Ranieri e Ronaldo Alves

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