BH CULT INDICA: O RAPPER ROGER DEFF

BH CULT INDICA: O RAPPER ROGER DEFF

Integrante do grupo Julgamento lança seu primeiro disco solo, o excelente “Etnografia Suburbana”
Divulgação

*Por Thiago Prata

A coluna BH CULT INDICA de hoje traz um dos nomes mais relevantes e uma das maiores referências do cenário hip hop mineiro: Roger Deff!

É com pesar que ele, sobretudo por seu trabalho à frente do grupo Julgamento, diagnostica como atemporal a canção “O Mesmo Processo”, de sua autoria, escrita em 2016, mas que poderia ter sido composta em qualquer momento ou capítulo da história brasileira. “Ao ouvi-la hoje, fico de cara como as coisas são cíclicas. O país passou por um processo de escravidão por algo em torno de 400 anos, e mais de um século depois (da abolição da escravatura, em 1888), as coisas são parecidas nos espaços sociais. Temos os mesmos excluídos, os mesmos incluídos, as mesmas dores, e o povo negro sendo tratado por meio de uma violência naturalizada”, sentencia o cantor.

“O Mesmo Processo” é uma das oito crônicas musicadas presentes no primeiro voo solo do artista. Intitulado “Etnografia Suburbana” e com previsão de lançamento para os próximos dias nas plataformas digitais, o álbum traz o ponto de vista de um cidadão, oriundo da periferia, com relação a seu lugar dentro de uma sociedade, assim como as mazelas da população negra a qual faz parte.

“Resolvi fazer minha própria etnografia (estudo descritivo das diversas etnias, de suas características antropológicas, sociais etc), no sentido de questionar quem é esse sujeito negro e urbano de hoje. Que cultura é essa que circula no centro mas nasce na borda? Transformo a periferia em centro, onde geograficamente e simbolicamente a população negra está. E faço minha análise, focando onde está esse grupo étnico, cultural e social e seu lugar de fala”, descreve Deff.

As outras sete faixas que integram o disco acompanham a potência do discurso de “O Mesmo Processo”, cada uma com sua particularidade e sua peculiaridade. É o caso de “Corpo Estendido”, que chama atenção logo de cara, com as citações em seu início: “Marielle presente, Amarildo presente, Mestre Moa presente”.

“Todos eles são símbolos de luta. Eu não queria que tivessem virado mártires, queria que eles estivessem aqui. Mas há de celebrar a luta e a forma como eles evidenciam essa luta. É preciso enfatizar sempre, porque é importante. Infelizmente temos essas pessoas que passaram por essas situações, dentro de um racismo estrutural que também mata”, comenta Deff, sem esquecer de apontar outras referências inseridas na canção.

“Cito ‘Construção’, de Chico Buarque. O título, ‘Corpo Estendido’, além de ser um jargão do futebol, está na música de João Bosco (‘De Frente Pro Crime’). Então, peguei essa licença poética. Falo de corpos que não morrem apenas fisicamente, mas também metaforicamente. O racismo mata de várias formas e causa doenças psicológicas, uma série de questões como depressão, alcoolismo, um monte de coisa”, afirma.

Composição e gravação

Embora seja um trabalho solo, Roger Deff contou com um timaço para ajudá-lo na propagação de suas crônicas, de Richard Neves e Luciano Cuíca Play a Flávio Renegado e Ricardo HD, irmão de Deff e outro integrante do Julgamento.

“O processo de criação das músicas começou em 2015, mas foi interrompido durante um tempo já que o Julgamento iria lançar o ‘Boa Noite’ (terceiro disco do grupo, de 2018). O Edgar Filho e Ricardo Cunha conduziram a produção. O trabalho é solo e leva meu nome, mas também é coletivo e não existiria sem todas essas pessoas envolvidas. Não existiria sem um coletivo por trás”, salienta.

Musicalmente, “Etnografia Suburbana” transita por vários lugares do diversificado mapa inserido no âmago de seu poeta. “O fio condutor é o rap, claro. Mas tem o lance musical de passar por vários estilos da música negra, como o jazz, o funk, o rock, que também começou com os negros, o maracatu, o samba… Esses estilos começaram com os negros, e queremos enfatizar isso também”, relata.

Luz no fim do túnel

Apesar de “Etnografia Suburbana” trazer o peso da realidade sob vários aspectos, existe um tom de otimismo entorno de seu discurso. “Infelizmente essa violência vai continuar por muito tempo. Não sabemos quantas pessoas e quantos jovens terão de passar por isso. Mas acredito na luta e que ela possa fazer diferença para gerações futuras. Eu falo de otimismo também, porque a gente lutou. E se não tivéssemos lutado, talvez não teríamos algumas coisas que conquistamos, como o lugar de fala. Quando se pensa que uma luta acabou, aparece alguém para tentar tomar o que conseguimos. Temos que batalhar e não retroceder. Acredito em mais espaços para todos”, diz o músico que não poupa críticas ao atual cenário político e social brasileiro.

“Temos um chefe de Estado que nem se importa com a vida negra, nem com os 80 tiros (referindo-se ao episódio ocorrido no dia 7 de abril em que o exército disparou 80 tiros contra um carro em Guadalupe, no Rio de Janeiro,  causando a morte do músico Evaldo Santos Rosa e do catador de materiais recicláveis Luciano Macedo; o episódio foi tido como um ‘incidente lamentável’ pelas autoridades do Governo). Lutar nem é opção, é obrigação. O disco traz essa questão de não baixar a guarda e lutar pelo espaço ao qual todos têm direito”, completa.

E Deff vai além. “O movimento feminista avançou muito nos últimos anos. As mulheres conquistaram algo muito grande. E tem que ser assim, para frente, não dá para vivermos no retrocesso. Isso vale para todas as lutas sociais: mulheres, pessoas negras, LGBT+, pobres de uma maneira geral, que sofrem injustiças. Sou otimista, até porque eu não falaria de algo se não fosse necessário lutar”, opina.

Show

O lançamento de “Etnografia Suburbana” acontece no dia 10 de maio, n’A Autêntica. O show de abertura fica por conta do Poliphonicos, projeto que celebra a cultura dos toca-discos, encabeçado pelos DJs Flávio Machado e Preto C, com as participações dos músicos Helder Araújo e Luiz Prestes (respectivamente guitarra e baixo da banda Julgamento).  Os ingressos custam R$ 20 (inteira) e R$ 10. Compre aqui.

A orientação de palco fica a cargo de Sérgio Pererê, nome proeminente da música em Minas e amigo do rapper. Quem assina a mixagem é o DJ Giffoni, parceiro de longa data no Julgamento.

Etnografia Suburbana
Faixas:

Etnografia Suburbana
O Mesmo Processo
Corpo Estendido
O Aspecto
Vida que Vem
Bem pra quem?
Ladeira
Eu vi Zumbi nem Florescer

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You Tube: Roger Deff

Enquanto o disco não chega, você confere a faixa Vida que Vem, pra sacar o que vem por aí:

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