ASSÉDIO: SÉRIE CONTA A HISTORIA DE VÍTIMAS DE ESTUPRO

ASSÉDIO: SÉRIE DA GLOBOPLAY CONTA A HISTORIA DE VÍTIMAS DE ESTUPRO

A minissérie é inspirada nos crimes envolvendo o médico ginecologista Roger Abdelmassih
Divulgação

A Globo lançou, no final de setembro, a nova minissérie exclusiva da GloboPlay: Assédio, uma obra de ficção livremente inspirada no livro “A Clínica – A farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih.

Nela, um grupo de mulheres se reúnem para denunciar abusos sexuais cometidos por um médico bem-sucedido e respeitado: Roger Sadala, interpretado por Antonio Calloni. A saga começa quando uma dessas mulheres rompe o silêncio e torna público o que até então era restrito ao consultório.

A vida de cinco mulheres se entrelaça em meio a sonhos, frustrações, tristeza, superação, heroísmo e um desejo enorme por justiça. Tudo isso motivado pela vontade de ser mãe, o que as leva ao consultório do médico.

Stela (Adriana Esteves), Eugênia (Paula Possani), Maria José (Hermila Guedes), Vera (Fernanda D’Umbra) e Daiane (Jéssica Ellen) têm uma situação forte que as une. Todas foram iludidas e violnetadas pela figura de Dr. Roger.

Referência na reprodução humana assistida, o renomado profissional usa todo o seu poder de persuasão e influências social e profissional para envolver as mulheres que o procuram. Todas são suas pacientes, com exceção de Daiane (Jéssica Ellen), que trabalha na clínica, mas também sofre com seu assédio.

Ao lado dessas mulheres está  Mira (Elisa Volpatto), jornalista que resolve investigar, obsessivamente, as provas dos crimes cometidos pelo médico. “O maior desafio da direção foi falar sobre a pluralidade das vítimas e sobre como o assédio está presente em situações inimagináveis, como, por exemplo, dentro de um consultório médico”, relata a diretora artística, Amora Mautner.

A série fala da força do coletivo por um objetivo comum e é estruturada a partir dos dramas das vítimas, entrelaçados à história de Roger, que se cruzam em curvas opostas, sem se prender necessariamente a uma ordem cronológica.

De 1994 a 2007, o médico está em ascensão e as vítimas, em queda. Com a união das mulheres, elas ganham força, e chega o ponto em que o médico inicia sua curva de decadência, entre 2008 e 2014.

É nesse período que as vítimas, com a ajuda das autoridades e da imprensa, buscam por justiça. “Vamos falar da força do coletivo. As vítimas tomam uma posição e decidem mudar a história mostrando o poder da coletividade contra o assédio. O médico da trama é um antagonista simbólico desse movimento conjunto de quem rompe o silêncio. O tema é um dos grandes protagonistas. É um assunto muito atual e tem gerado debates no mundo todo”, ressalta a autora Maria Camargo.

Outra coisa que chama atenção é como o médico usa o nome de Deus o tempo todo para posar como um cidadão de bem. Mesmo no ambiente familiar, Roger desrespeita sua mulher e os filhos, com o aval da mãe que passa a mão em sua cabeça independente da situação.

Em todas as refeições familiares, por exemplo, o médico sempre pede para rezarem antes de comer. E se esconde através dessa falsa fé para cometer as maiores atrocidades contra as mulheres com as quais convive.

Roger trai a mulher, mesmo no período em que ela enfrenta um grave câncer. E depois que ela morre, passa a se relacionar com uma de suas amantes, que não acredita nas acusações feitas contra ele. Pelo contrário, o defende cegamente.

Esse é outro ponto interessante da série. Mostrar como uma mulher pode ficar cega diante de tantas comprovações de que o médico seria culpado, em nome de um amor que não liberta, pelo contrário. Que a mantém presa à uma história que só existe em sua cabeça, de um relacionamento saudável e amoroso.

Assistindo a Assédio, é impossível não sentir coisas como nojo, horror, medo, revolta, entre outros, porque, apesar de nunca ter vivido nada parecido (graças a Deus), tento me colocar no lugar delas e sentir a dor que sentiram. Merecemos respeito! Merecemos ir a um consultório para realizar o sonho de ser mãe e sair de lá apenas com a inseminação artificial bem-sucedida. E não com agressões, estupro e uma violência que jamais será esquecida ou superada.

E isso aí acontece todos os dias. Desde situações mais leves, como o cara que passa na rua e te chama de gostosa, a coisas seríssimas como o que temos acompanhado nos jornais: assédio dentro de coletivos, estupros feitos por pais ou parentes próximos, homens achando que tem mais direito que qualquer um e submetendo as mulheres a todos os tipos de humilhação.

Temos o direito de sair de casa com um short curto e não ser chamada de piranha. Temos o direito de andar na rua sem medo. Temos o direito de ser quem queremos ser, sem nos preocupar com a opinião alheia nem em como isso vai nos afetar de alguma forma.

Portanto, que a série sirva de alerta: não devemos nos calar diante das injustiças e atrocidades que sofremos todos os dias. E que, ao contrário do que temos observado nos últimos tempos, nós, mulheres, precisamos nos unir contra todo tipo de agressão. Seja ela verbal, física ou mesmo psicológica. Só assim, poderemos construir um mundo mais seguro e digno para vivermos.

ENTREVISTA

Conversamos com a autora Maria Camargo e a diretora artística Amora Mautner, que nos contaram um pouco sobre a origem da série. Confira:

Crédito: Marcos Ramos

BH Cult: Como podemos definir ‘Assédio’?
Maria Camargo: A série é uma história de ficção, livremente inspirada no livro “A Clínica – A farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih”. É a história sobre um mundo que está mudando, está em transformação. De uma sociedade que há muito tempo está calcada em um modelo machista de funcionamento, de coisas que são consideradas naturais e normais, e não deveriam ser. Os assédios e, sobretudo, os estupros e a violência sexual são o ponto mais radical desse funcionamento, porque é justamente disso que estamos falando. E falamos dessas mulheres, vítimas desse sistema, que são atacadas por um médico especialista em fertilização. São mulheres que estão com uma fragilidade emocional, que desejam muito um filho e se sentem fracassadas por não ter. Então recorrem a esse homem, como última esperança de realizar esse sonho. ‘Assédio’ vai falar sobre essas mulheres que em algum momento deixam de ser apenas vítimas de assédio e violência sexual e passam a ser protagonistas das suas histórias. Elas representam esse mundo que está mudando.

BHC: Como surgiu a ideia de escrever a série? O que a motivou falar sobre assédio e maternidade?Maria: Tive filho muito jovem, com 21 anos, e sempre quis ser mãe. Até colecionava revista de bebês. Era uma obsessão. Pensava que se tivesse problemas para ter filhos seria muito infeliz, por isso, faria de tudo na vida, no mundo, para ter um filho. Tenho uma grande empatia por esse desejo imenso de ser mãe, me choco com a violência que as vítimas de Roger Abdelmassih sofreram e admiro a forma como a enfrentaram. Desde que ouvi falar dos abusos sexuais do médico, senti que era uma história icônica, de grande significado simbólico. E que poderia inspirar uma história de ficção que falasse não só dessas vítimas, mas de todo um sistema, de um modo de funcionamento social que permite que coisas assim, tão violentas e tão absurdas, aconteçam. E, ainda mais importante, a história também aponta para mudanças nesse funcionamento que estamos vendo e sentindo acontecer. Espero que ‘Assédio’, além de entreter, possa ser mais um elemento para reflexão.

Crédito: Daryan Dornelles

BH Cult: Quais os principais desafios desse trabalho?
Amora Mautner:
O maior deles foi falar sobre a pluralidade das vítimas e sobre o assédio em si, sobre como ele está presente em situações inimagináveis, como, por exemplo, dentro de um consultório médico. Sobre as referências, fui para dois universos cinematográficos que gosto muito. Um é o cinema grego, muito relevante hoje em dia, que tem como DNA uma secura e uma falta de glamourização das coisas. E um diretor que amo muito e me inspirou bastante, o alemão Rainer Werner Fassbinder, do qual fui revisitar as obras. Ele dirigiu muito bem mulheres e toda a expressão feminina. Peguei essas duas vertentes e fui estudando.

BHC: Qual a importância desse trabalho e o que ele representa para você?
Amora:
O fato de ter muitas mulheres envolvidas ajudou muito na concepção de todo o projeto porque, justamente, tem essa sensação em comum, que todas as mulheres que fizeram parte do projeto têm. De se sentirem assediadas durante uma vida, em vários aspectos. Essa série teve esse plus de eu conseguir estar com outras mulheres podendo falar deste assunto. 

A série, de Maria Camargo, tem direção artística de Amora Mautner, direção-geral de Joana Jabace e direção de Guto Botelho. Ainda não há data de estreia na TV aberta.

 

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