ARTE URBANA: NILO ZACK E SEUS PALHAÇOS AUGUSTUS

ARTE URBANA: NILO ZACK E SEUS PALHAÇOS AUGUSTUS

Conheça o trabalho de um dos principais representantes da arte urbana em BH
Reprodução Facebook

Na nossa segunda reportagem especial sobre a arte urbana em BH, resolvi entrevistar um dos artistas mais presentes na cidade. Com certeza você já se deparou com os palhaços do artista Nilo Zack pintados por aí.

O desenho sempre me chamou atenção porque não tinha os elementos coloridos e alegres dos palhaços que a gente costuma ver, mas uma melancolia no olhar e uma maquiagem simples que me fazia pensar o que “a pessoa que desenhou aquilo” queria dizer.

Vamos descobrir? Acompanhe a entrevista:

BH Cult: Como surgiu a ideia de fazer as pinturas na rua?
Nilo Zack: Meu pai era pintor e letrista, sempre trabalhava nas ruas, e eu, quando criança, vendo aquele ambiente de leras, tintas e trabalhos artísticos do meu pai, comecei a desenhar também, muito cedo. Aos 13 anos, depois que mudei de escola, um amigo me mostrou o que era pichação – meu primeiro contato com arte de rua. Foi nesta época também que fiz minha primeira intervenção na rua, influenciado por esse meu amigo. Só que, depois de um tempo, comecei a perceber que não era a mesma coisa que meu pai fazia, porque aos olhos da lei e da sociedade, o que eu estava fazendo era crime né, não era uma coisa legal. Então decidi procurar uma oficina de grafite. No meu bairro não tinha, fizemos um requerimento que foi atendido e aí conseguimos a oficina para o Taquaril. Entrei lá aos 17 anos e fiquei durante um ano, um ano e meio. Depois saí porque o que eu queria mesmo era pintar na rua. Fiquei um ano fazendo trabalhos sob encomenda no meu bairro até que fui convidado a dar aulas na mesma oficina que onde tinha estudado. A partir do momento em que virei professor, não precisa mais fazer tantos trabalhos comerciais porque já tinha uma outra fonte de renda e aí comecei a dedicar minhas pinturas a trabalhos mais autorais. Na época, montamos uma equipe de grafite chamada Setor 9, saímos aos finais de semana pela cidade, pegando muros de lotes vagos, embaixo de viadutos para fazer alguns painéis de grafite. Mas meu trabalho ainda não tinha uma identidade própria, pintava de tudo.

Nilo Zack

BHC: E como chegou nessa identidade? Porque todos os seus desenhos têm um palhaço?
Nilo: Resolvi entrar na universidade de Cinema de Animação e Artes Digitais na UFMG e, nessa época, com 24 anos, eu estava meio desanimado com a questão do grafite porque o horizonte que eu enxergava nessa área era só o de fazer trabalhos comerciais, não me enxergava como artista. Mas, a universidade mudou minha maneira de pensar. No 1º semestre, a professora pediu para fazer um trabalho sobre coisas do cotidiano e eu fiz o primeiro menino palhaço. Na verdade, é uma referência ao meu sobrinho Juan Manuel, e há algum tempo eu vinha fazendo algumas fotos com ele, maquiando de palhaço, gatinho, ovelha, etc. Depois disso, resolvi pintar meu primeiro menino palhaço na rua como um experimento artístico. A reação da minha família foi muito positiva e comecei a perceber que com as coisas que estudava na universidade, mais o feedback da minha família e das pessoas que viram o desenho, que seria legal fazer essa ligação entre a arte e objetos afetivos, no meu caso meu sobrinho, e aí, continuei nessa linha dos meninos palhaços. Como a universidade me ensinou que a arte tem que vir de um sentimento, mas só ele não basta, fui pesquisar a história dos palhaços e acabei descobrindo coisas muito legais que casaram bem com meu trabalho. Uma delas é que existem dois tipos de palhaços: os clowns – de cara branca que representa os ricos, a burquesia; e os augustus – de maquiagem pobre, basicamente só a boca vermelha, o palhaço dos pobres. Era o palhaço das feiras, normalmente se fingia de bêbado, e sempre podia criticar os reis, a autoridade daquele local. Comecei a trabalhar isso nas minhas pinturas, então, normalmente, o rosto dos palhaços espalhados pela cidade tem alguma crítica ao que está acontecendo, mas o principal é a afetividade. O palhaço vem para te fazer sorrir. Depois, talvez, para te fazer pensar!

BHC: Como você vê esse grande movimento em prol da arte urbana que BH vem passando nos últimos tempos?
Nilo: Hoje eu acredito que estamos vivendo os maiores momentos da arte de rua, com vários eventos muitos legais como o Cura (falamos dele aqui na primeira parte do especial de arte urbana), o Gentileza, entre outros, e isso acaba dando respaldo para os artistas saírem para as ruas para poder pintar, trazem uma visão respeitosa para o artista de rua. O que está faltando agora, a cereja do bolo, seria um evento como a Bienal de Grafite que teve em 2009, reunindo todos esses projetos e artistas em um único lugar fazendo uma grande exposição para mostrar a qualidade da street art de BH.

BHC: Como seu trabalho contribui para isso?
Nilo: As próprias pinturas nas ruas, não só as minhas, fazem a população ter uma visão melhor sobre o que é arte e o que é arte de rua. Então, como meu trabalho faz parte de um todo, de um movimento, o bom momento que estamos vivendo é graças a isso. Sempre que sai uma matéria falando de qualquer um dos artistas ou desses movimentos, isso influencia no mercado como um todo.

BHC: Como você escolhe os locais que vão receber seus desenhos? Há algum tipo de critério?
Nilo: Durante muito tempo pintei sem autorização, saía de casa com meu material e escolhia alguns lugares, a tendência eram lugares mais degradados. Pegava uma via de acesso rápido onde passam muitas pessoas e escolhia o lugar que estava mais sujo e abandonado para dar vida. Na minha cabeça, estava decorando a cidade. Hoje, escolho lugares com maior visibilidade, democratizando o acesso a arte.

Guaicurus

BHC: Se pudesse citar dois trabalhos especiais, quais seriam?
Nilo: Difícil… Mas uma vez pintei um menino muito triste na Rua Guaicurus com São Paulo, hoje já até apagaram. Para mim é emblemático porque foi quando entendi que o meu grafite dialogava com a rua. Minha ideia na época ao pintar o menino triste foi porque na região que ele estava não tinha como ele ser feliz, era um lugar com muito furto, tráfico de drogas, pobreza, miséria. Quando cheguei lá, não senti que era para desenhar um palhaço feliz.

O outro é um menino negro que pintei palhacinho, representando meu primo Giovanni, e a mesma imagem está desenhada no Centro Cultural Alto Vera Cruz e na Rua Getúlio Vargas com Paraíba, na Savassi. É legal pensar como esses dois universos interpretam a arte.

BHC: Há ainda muito a ser feito pela arte urbana na cidade? Na sua opinião, o que falta?
Nilo: Falta um pouco de abertura nos espaços formais de arte para o grafite. Fiz uma exposição no ano passado no Circuito da Praça da Liberdade e foi a primeira desse tipo que eles receberam. Acho que as pessoas ainda precisam enxergar o poder que o grafite tem e ainda não foi revelado!

Muito massa né? Para conhecer os trabalhos de Nilo Zack, acesse:
Instagram: @nilozack
Facebook: @ctor9

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